Elevação Herbal em Illmatic: Cannabis, Memória e Ritual Cultural Negro
Como a cannabis se moveu pelo hip-hop como uma prática de sobrevivência
Que lugar a cannabis ocupou na vida cultural negra, fora das manchetes e da legislação?
No hip-hop, a Planta circulou de forma à vista de todos e de forma consistente.; em cyphers, escadarias, quartos, corredores de conjuntos habitacionais. Em Illmatic (1994), de Nas, a cannabis aparece como parte da lógica interna do álbum. Ela se instala nas pausas entre as rimas, nas reflexões que derivam e retornam.
Quando Nas fumava, ele se lembrava.
Illmatic funciona como um registro cultural. Dez faixas documentando Queensbridge no início dos anos 90: tiros do lado de fora das janelas, vidas curtas aceitas como fato, ternura dita com cuidado. A cannabis aparece dentro desse mundo como algo estabilizador; uma forma de desacelerar o tempo o suficiente para pensar, para lembrar, para permanecer presente.
Ao longo das dez faixas do álbum, a Planta surge como parte do ambiente.
“A vida é uma merda e depois você morre, por isso a gente fuma L¥E,
porque você nunca sabe quando vai partir.”
Para jovens homens negros vivendo sob precariedade constante, o uso da cannabis era ritual; uma forma de desacelerar as coisas sem sair do cômodo.
Mais antiga do que a legalização e a proibição
As relações negras com a cannabis antecedem em muito a legalização. Por toda a diáspora africana, pessoas negras lançaram grande parte da base de como a Planta passou a ser entendida, utilizada e circulada no mundo moderno. Muitas histórias sobre a cannabis apagam esse trabalho, substituindo-o por lendas recicladas. O resultado é um passado achatado que transforma prática em instinto e contexto em estereótipo.
Nas cidades norte-americanas, essa base não desapareceu; ela foi remodelada pela vigilância policial, pela densidade urbana e pelo controle social. O hip-hop não inventou essa relação; ele deu forma ao que já existia.
“Choco blunts me fazem vê-lo cair na fumaça da minha erva.”
Aqui, o luto surge através da névoa. A fumaça se torna uma tela onde a memória se repete.
Cannabis como Medicina
“Minha janela dá para tiroteios, overdoses de drogas /
Vivo entre nenhuma rosa, só o drama /
Pra valer, uma pistola é meu destino, minha medicina é a ganja.
”
“Medicina” aqui não é metáfora. É como as pessoas se mantinham firmes em condições feitas para destruí-las. Illmatic captura uma cultura da cannabis formada sob vigilância, passada de mão em mão, compreendida sem precisar de explicação.
Ritual, Não Recreação
“Exalo a fumaça amarela de Buda através de passos justos.”
“Empacotando como um Rasta no ponto da erva.”
Nas incorpora múltiplos sistemas de referência em sua escrita sem parar para explicá-los. A linguagem reflete uma mente que puxa do que está ao seu redor; conhecimento de rua, ecos da diáspora, frases emprestadas — do jeito que o hip-hop sempre fez. A cannabis está dentro dessa mistura como parte de como o pensamento se move e a memória se organiza em Illmatic.
ANTES DAS LICENÇAS
Décadas antes de surgir uma indústria legal da cannabis, a Planta circulava pelas comunidades negras sem proteção ou permissão. Ela circulava sob vigilância; moldada por batidas policiais, acusações e sentenças que persistiam muito depois que a fumaça se dissipava.
Nesse mundo, a cannabis não era embalada como uma indústria. Ela circulava entre pessoas; às vezes comércio, às vezes conforto; manuseada com cuidado, compartilhada deliberadamente, compreendida sem explicação.
Essa história não aparece em balanços financeiros. Ela sobrevive em outros lugares, ou seja, em registros como Illmatic e nas vidas que a moldaram.
PANGO mantém esse registro em evidência.
NO REGISTRO
Illmatic preserva uma versão da cultura da cannabis que antecede explicações. As referências permanecem porque eram ordinárias, não excepcionais.
Essa ordinariedade é o ponto.