Ritmos de Resistência

Pessoas reunidas na Batalha da Alfândega. Foto por: João Carlos / @azuos.jpg

Como o Hip Hop e o Ativismo Canábico Fortalecem Vozes Marginalizadas no Brasil

Todas as quintas-feiras, o antigo terminal de ônibus no centro de Florianópolis, no sul do Brasil, se transforma no epicentro da cultura hip hop. A Batalha da Alfândega, iniciada em 2009, reúne entusiastas para batalhas de rap freestyle a partir das 19h. O evento se tornou uma referência nacional na cena do rap improvisado, inspirando o documentário A Causa é Legítima (2016), dirigido por Ricardo Pessetti. O projeto surgiu de forma orgânica, promovido por um grupo de MCs apaixonados pela rima, e ajudou a espalhar outras batalhas de rap em diversos bairros de Florianópolis, como Trindade, Canasvieiras, Ingleses e Campeche.

O hip hop brasileiro, que emergiu das favelas como resposta às desigualdades sociais, sempre carregou o peso do protesto e da resistência em suas letras. Em Florianópolis, essa expressão cultural encontrou um palco na Batalha da Alfândega, onde a luta contra a criminalização da juventude negra e marginalizada se cruza com a defesa da legalização da cannabis. O que antes era um movimento restrito a círculos universitários agora ecoa pelas ruas, demonstrando que a luta pela descriminalização também é uma luta de classe.

Para pessoas como Vini Lanças, figura proeminente no movimento antiproibicionista local, o debate sobre a cannabis vai além da simples questão da legalização.

"Há dez anos, o movimento era dominado por universitários brancos. Hoje, ele pertence aos moleques da rua", diz Lanças. Segundo ele, a verdadeira questão em jogo é a denúncia de um sistema que usa a proibição como pretexto para criminalizar e oprimir comunidades negras e pobres.

Dentro da Batalha da Alfândega, muitas pessoas se reúnem, cada uma com histórias marcantes que refletem suas vivências e lutas. Esses encontros vão além das rimas, revelando a riqueza das experiências de quem usa o hip hop como ferramenta de expressão e resistência.

DRE

Uma das participantes da Batalha da Alfândega é Andressa Araújo, artista de 28 anos conhecida artisticamente como Dre.

"Andressa desempenha um papel importante como cidadã, mas Dre vai além de ser uma artista; ela é MC e ativista na cena hip hop."

Dre começou sua carreira aos 19 anos na Batalha da Conselheiro, em São Paulo, a maior cidade do Brasil, em 2015. Após se destacar em competições regionais e estaduais, mudou-se para Itajaí, no estado de Santa Catarina, onde passou a ministrar oficinas de hip hop em escolas públicas. Em 2018, Dre conquistou o campeonato estadual de Santa Catarinae foi vice-campeã da competição interestadual, tornando-se a terceira mulher a participar de um campeonato nacional de freestyle.

Andressa Araújo, conhecida como Dre. Foto por: João Carlos / @azuos

Estabelecendo-se em Florianópolis, Dre se tornou uma referência no rap, acumulando diversos títulos, incluindo o campeonato regional da Grande Florianópolis (2022/2023) e o tetracampeonato da Batalha da Marcha da Maconha Floripa (2021/2024). Este último é especialmente significativo, pois a Marcha da Maconha é um evento que une a cultura hip hop à luta pela legalização da cannabis.

"Com a popularização das batalhas de rap e a criminalização da cannabis, muitos nos veem como criminosos, invasores ou pichadores", comenta Dre. Ela destaca a importância da cannabis para sua criatividade, algo que considera essencial no rap. "Numa batalha de rap, você precisa ser criativo e manter a calma. Quem está bêbado não consegue fazer isso, mas quem está chapado consegue rimar de forma leve, livre e relaxada."

Dre explica que, devido à ilegalidade, a cannabis disponível muitas vezes é de baixa qualidade e pode apresentar riscos à saúde, como a presença de mofo. No entanto, ela enfatiza o papel positivo da cannabis em sua vida, afirmando que "me ajuda muito na criatividade e na ansiedade, que pode ser um obstáculo nas atividades do dia a dia."

Ela também menciona que sua mãe sofre de fibromialgia, uma condição que causa dores musculares generalizadas. Dre está determinada a conseguir autorização para que sua mãe utilize cannabis medicinal como parte do tratamento.

WG

Wagner Goulart, conhecido na cena como WG, é um técnico de TI de 28 anos que encontrou no rap uma forma de expressão e transformação pessoal. Nascido em São Paulo, WG sempre teve paixão pelo funk, mas foi a colaboração entre MC Guimê e Emicida na música País do Futebol que despertou seu interesse pelo rap e pelas batalhas de rima. A partir de 2014, começou a se envolver mais profundamente com a cultura freestyle, explorando suas habilidades e se dedicando à arte.

Wagner Goulart, conhecido como WG. Foto por: João Carlos / @azuos

Após se mudar para Balneário Camboriú, uma cidade conhecida por suas praias e vida noturna no sul do Brasil, Wagner entrou em contato com a cena local de batalhas de rap. Uma aposta com um amigo o levou ao palco pela primeira vez e, desde então, ele não parou mais.

"A sensação de rimar é indescritível, especialmente em um espaço onde raramente somos vistos. Como um homem negro no sul do Brasil, enfrento desafios extras, incluindo o racismo." Ele relembra como, durante as batalhas, as pessoas realmente prestavam atenção no que ele tinha a dizer. "Era uma energia indescritível, algo realmente lindo."

Apesar de sua conexão profunda com o rap e a cultura hip hop, WG opta por não fumar ou usar cannabis, uma decisão pessoal que ele insiste em manter, mesmo em um ambiente onde a cannabis é frequentemente associada ao estilo de vida e à criatividade dos artistas.

Ele acredita que o rap pode afastar os jovens do caminho errado e oferecer esperança e inspiração, assim como aconteceu com ele. "O rap mostra que é possível sair das ruas e ter sucesso, assim como muitos artistas que vieram de origens humildes." Apesar dos desafios e da discriminação que o movimento ainda enfrenta, WG está convencido de que o rap está crescendo e alcançando mais pessoas.

"Vejo o rap quase como uma religião, porque ele me transformou e me ajudou a superar a depressão e a fobia social."

A mudança em sua vida também refletiu em seus relacionamentos familiares—seus pais passaram a vê-lo de forma diferente, e hoje, WG se dedica a apoiar outros jovens a encontrarem no rap um caminho de mudança e crescimento.

Nega Bula

Nega Bula, também conhecida como Luiza Nascimento, é reconhecida por sua força e presença marcante, refletindo o poder da mulher negra. Com um estilo autêntico e uma mensagem impactante, Nega Bula é MC e compositora, usando sua música para abordar temas cruciais como igualdade, respeito e empoderamento feminino.

"Meu nome de registro é Luiza, mas no palco sou Nega Bula." O nome Bula faz referência à bula de remédio, que explica como um medicamento deve ser usado corretamente. No caso dela, o nome simboliza uma prescrição de empoderamento e cultura, transmitida através de suas letras.

Ela se mudou para Florianópolis há quase cinco anos, vinda do Rio Grande do Sul, onde iniciou sua jornada no rap em 2010. No começo, participava de batalhas e eventos com suas irmãs, mas, com o tempo, decidiu seguir carreira solo.

Para Nega Bula, o rap é muito mais do que uma forma de expressão artística—é uma ferramenta poderosa na luta contra a opressão racial e social. Ela enxerga o rap como "ritmo e poesia", uma revolução através das palavras, oferecendo uma plataforma para empoderamento e transformação social.

"O rap é uma forma de mostrar que não precisamos mudar para nos encaixar nos padrões da sociedade. É um espaço para se fortalecer e mostrar quem realmente somos."Nega Bula.

Luiza Nascimento, conhecida como Nega Bula. Foto: Instagram.

Nega Bula também reconhece o papel da cannabis em sua jornada artística e espiritual, destacando como essa planta se entrelaça com sua música e visão de mundo. Para ela, a cannabis não é apenas uma substância recreativa, mas uma ferramenta de conexão, introspecção e criatividade, impulsionando sua arte e sua luta por justiça social.

"A cannabis me ajuda a desacelerar e me conectar com minhas raízes, com o que realmente importa. Faz parte da minha cultura e da minha resistência," compartilha.

Ela também acredita que o rap pode ter um impacto significativo em diversos setores da sociedade.

"Se o rap estivesse presente na política, nas escolas e nos hospitais, poderia promover uma transformação muito maior. Imagine oficinas de poesia e sustentabilidade lideradas por rappers," sugere.

Nega Bula enfatiza como o rap transformou sua vida pessoal, ajudando-a a se libertar da rotina opressiva de um trabalho corporativo e permitindo que se dedicasse inteiramente à sua paixão.

"Trabalhava em uma empresa privada no Rio Grande do Sul, mas sempre dedicava meu tempo livre ao rap. Hoje, viver do rap e da arte é a realização de um sonho. O rap me permitiu crescer e encontrar meu verdadeiro caminho," revela.

Além de sua atuação como MC, Nega Bula é a criadora do podcast "Leia a Bula", que vai ao ar quinzenalmente. No programa, ela explora tendências atuais, destaca MCs e artistas emergentes e cria um espaço para discutir temas relevantes dentro do universo do rap.

"O podcast é uma forma de trocar informações e experiências. Falamos sobre tudo o que está acontecendo no rap e mantemos o público atualizado com as novidades," explica Nega Bula.

Com uma abordagem dinâmica, "Leia a Bula" busca ampliar a visibilidade de artistas e promover discussões importantes sobre a cena musical. O podcast está presente no YouTube, Instagram e Spotify, funcionando como uma extensão de seu trabalho e fortalecendo a rede de apoio e engajamento dentro da cultura hip hop.

FK

Franklin Pereira da Silva, conhecido na cena do rap como FK, é um artista de 18 anos, natural do Acre, estado da região norte do Brasil. Aos 15 anos, FK se mudou para Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, em busca de novas oportunidades.

Antes de mergulhar totalmente no rap, trabalhou como jovem aprendiz e, ao concluir seu contrato, decidiu se dedicar inteiramente à sua paixão pela música.

"Comecei a rimar como uma forma de aliviar o estresse e encontrei um propósito no rap. Foi assim que me envolvi nas batalhas e me tornei organizador da Batalha do Lago, uma das maiores batalhas de rap em Palhoça," explica FK. (Palhoça é uma cidade vizinha a Florianópolis, conhecida por sua crescente cultura urbana.)

Franklin Pereira da Silva, conhecido como FK. Foto: Instagram.

Para FK, o rap é uma forma essencial de expressão na luta contra a opressão e a injustiça. Ele enfatiza como sua presença como MC muitas vezes desperta suspeita e atrai pressão policial, simplesmente por seguir sua paixão.

"O rap é a expressão do que sentimos, e mesmo com a repressão, continuamos a falar nossas verdades."

FK revela que, há dois anos, esteve envolvido em atividades criminosas, enfrentando desafios sérios e um estilo de vida caótico.

"Eu estava perdido no mundo do crime, envolvido com o tráfico de drogas. Mas então Deus me ajudou a mudar de caminho."

Essa transformação, impulsionada pelo rap, trouxe a ele uma nova perspectiva e um senso de propósito.

Para FK, o rap não é apenas uma forma de expressão, mas uma ferramenta de mudança e superação. Ele também vê uma conexão entre sua prática musical e o uso da cannabis, que considera uma maneira de acalmar a mente e inspirar sua criatividade.

"Eu fumo, mano. Conheci a cannabis antes de entrar no rap, e ela me ajudou a enxergar a vida de forma mais ampla e a criar com mais profundidade."

Assim, tanto o rap quanto a cannabis desempenham papéis significativos em sua jornada pessoal e artística.

Cultura Hip Hop e a Luta Antiproibicionista

Essas figuras não são apenas artistas ou MCs; são também agentes de mudança social. Cada um deles carrega experiências pessoais que refletem a luta contra a opressão, discriminação e injustiças enfrentadas diariamente em comunidades marginalizadas. Eles encontram na cultura hip hop uma forma de resistência, utilizando a música como ferramenta de transformação.

A Batalha da Alfândega, por exemplo, se tornou um espaço onde essas vozes encontram palco para suas narrativas, entrelaçando arte, política e a luta pelo fim da proibição da cannabis.

Para muitos, como Dre, WG, Nega Bula e FK, o rap não é apenas um gênero musical, mas uma plataforma poderosa para desafiar o status quo e promover transformações individuais e coletivas. Essas histórias revelam como a interseção entre hip hop e o movimento antiproibicionista contribui para a construção de uma identidade cultural resistente às imposições sistêmicas, sempre buscando a libertação e o empoderamento das comunidades marginalizadas.

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